GRUPO HOSPITALAR CONCEIÇÃO 
PORTO ALEGRE, TERÇA-FEIRA, 14 DE SETEMBRO DE 2004
O PRESENTE E O FUTURO DOS HOSPITAIS DE ENSINO 1

Rogério Amoretti 2

                    • " /...caminante no hay camino, / se hace camino al andar. / Al andar se hace camino / y al volver la vista atrás / se ve la senda que nunca / se ha de volver a pisar. /
                    • (Antonio Machado, citado por Edgar Morin em Educar na Era Planetária. UNESCO/Cortez, 2003).

 

      1. O processo de certificação de Hospitais de Ensino para todo o Brasil, determinado nas portarias conjuntas dos Ministérios da Educação e da Saúde de nº 1.000, 1.005 e 1.006 de abril e maio de 2004 prevê, entre outros objetivos, a criação de um Programa de Reestruturação dos Hospitais de Ensino no Sistema Único de Saúde (Artigo 1º da portaria interministerial nº 1.006 de 27 de maio de 2004). Esta diretiva culmina uma intensa discussão dos Hospitais de Ensino, dentro da ABRAHUE, na Comissão Parlamentar de Saúde da Câmara Federal e com os Ministérios da Educação e da Saúde, que aponta a grave crise desses Hospitais. A crise é histórica e estrutural, constituiu-se ao longo de mais de uma década e têm no financiamento insuficiente dos procedimentos hospitalares realizados e nas contradições administrativas, gerenciais e políticas promovidas ao longo dos anos, alguns dos seus elementos reconhecidos. A decisão dos Ministérios do Governo Federal de reverter esta situação passa pela necessidade de introduzir profundas transformações na gestão e atuação dos Hospitais, com a determinação de que eles assumam de maneira definitiva os princípios e as diretrizes do SUS.

      2. O momento, portanto, é de mudança e de reavaliação de antigas práticas e pactos. A luta que a Associação Brasileira de Hospitais Universitários e de Ensino vem realizando nos últimos anos, por uma orçamentação que permita a sustentabilidade dos Hospitais onde se realiza a maior parte dos procedimentos de alta complexidade, grande parte da formação de recursos humanos da saúde, bem como da pesquisa em saúde no país parece estar dando resultados sólidos. A nova sistemática proposta prevê a revisão da forma dos financiamentos tendente a abandonar os pagamentos meramente por procedimentos, apontando a possibilidade de contratualizações vizando atingir metas e indicadores, dentro de um cenário que permita a sustentação dos estabelecimentos hospitalares em suas necessidades reais. Como contrapartida, os Hospitais deverão definir claramente o seu perfil assistencial e se integrarem na rede hierarquizada dos serviços de saúde do SUS, sob a responsabilidade do gestor municipal, participando de maneira efetiva na construção da rede de assistência articulada e integrada com os serviços básicos de saúde dos municípios e do estado a que pertençam. Esta proposta contém uma demanda constitucional aos Hospitais de Ensino, vigente desde a constituição de 1988 e até agora ainda não cobrada, para que reorientem sua vocação assistencial, de ensino e de pesquisa, bem como todo o seu potencial tecnológico, diretamente para a construção do Sistema Único de Saúde e a serviço do atendimento universal aos usuários do SUS, seja de maneira prioritária, no caso dos hospitais públicos, seja de forma suplementar, em relação aos demais. Este desafio aponta a necessidade de uma revisão, para muitos hospitais, do próprio processo de gestão e gerenciamento dos fluxos e sistemas, do acesso dos usuários, da regulação das consultas especializadas e internações, da priorização nas ofertas de serviços por especialidades, entre outros aspectos.

      3. As necessidades do SUS nem sempre foram contempladas no processo histórico de autonomia de gerenciamento dos Hospitais de Ensino. Isto se deveu principalmente ao fato de os hospitais se organizarem de forma espontânea, ainda em uma época anterior à lei constitucional de 1988. Somente agora, passados 16 anos da criação do SUS, a determinação legal está sendo exigida pelo governo federal, apontando para a generosa possibilidade de afirmação definitiva do SUS como um dos maiores e melhores sistemas de saúde pública e de assistência integral à saúde das pessoas, existente no mundo. Sem dúvidas, em toda a nossa longa história de exclusão, exploração e opressão às classes populares brasileiras, a afirmação do SUS representou a maior iniciativa social e política já realizada de inclusão universal, com equidade, justiça e promoção concreta de
        democracia e cidadania.

      4. Dessa maneira, constitui-se agora uma realística expectativa de ampliação induzida da oferta de serviços essenciais, particularmente aqueles que representam carências e pontos de estrangulamento da assistência à saúde da população. Este é o objetivo maior da parceria contratual e do entendimento necessário entre os gestores públicos municipais e os diretores dos estabelecimentos hospitalares. A nova forma de financiamento contratualizada por metas e indicadores, avalizada pelo gestor municipal junto aos diretores dos hospitais possibilitará a qualificação da assistência e a correção das ofertas de serviços segundo as necessidades reais da população de cada região. Estará re-valorizando de maneira significativa o papel dos hospitais de Ensino diante do olhar e da opinião da população, bem como corrigindo distorções históricas nos financiamentos destes, permitindo a sustentabilidade em condições mais adequadas das instituições hospitalares.

      5. A qualificação dos atendimentos se dará também pela organização dos sistemas de referência e contra-referência com as demais unidades de saúde, pela humanização da assistência também prevista nas portarias, pelas atividades de educação permanente dos profissionais da saúde de todas as categorias funcionais e pela colaboração técnica das equipes de profissionais dos hospitais e das redes municipais na construção de protocolos de cuidados clínicos. Também é prevista a reorganização dos serviços de urgência e emergência, além da necessária pactuação quando da ampliação ou abertura de novos serviços, sempre segundo as necessidades reais do sistema. Estas e outras combinações intergestores apontam para uma nova modalidade de gestão compartilhada e cooperativa com vistas à reorganização do sistema de saúde loco-regional, tendendo a superar modalidades competitivas e precárias de gerenciamento das necessidades de organização do sistema de saúde em cada município.

      6. A integração da assistência, do ensino e da pesquisa realizadas nos Hospitais de Ensino e a re-organização do Sistema Único de Saúde através da pactuação intergestores municipais e diretores, representa a possibilidade de potencialização das ações de assistência à saúde da população, tanto na atenção primária quanto na média e alta complexidade. Representa também a certeza do elevado interesse que passarão a ter também os gestores municipais, para a solução da dramática condição de crise vivida pela maioria dos Hospitais de Ensino, pois eles estarão definitivamente integrados no sistema em rede, em cada município. Através da contratualização das metas referidas e de um financiamento que corresponda às reais necessidades e custos de manutenção de cada Hospital, a histórica crise em que vivem os hospitais poderá ser superada.

      7. A inserção dos Hospitais de Ensino nas necessidades assistenciais do SUS terá também, a curto e médio prazo, um significativo efeito na qualidade de formação dos recursos humanos para o SUS, ampliando junto aos programas de estágios, residências médicas e residências integradas multiprofissionais, os conhecimentos e a consciência necessária para os profissionais em formação, permitindo uma maior valorização e compreensão da lógica assistencial e ética do Sistema Único de Saúde e preparando-os de forma mais conveniente para a sua entrada em um mercado de trabalho no qual as oportunidades de emprego na rede pública são crescentes e atrativas.

      8. Da mesma maneira, as pesquisas voltadas para as necessidades concretas de saúde da população e o aperfeiçoamento do SUS estarão também potencializadas, particularmente agora que a 2ª Conferência Nacional de Ciência Tecnologia e Inovações em Saúde - 2ªCNCTI/s - aprovou uma Agenda Nacional de prioridades em pesquisas para a saúde, respeitando as características de cada região. Todas estas iniciativas apontam para o aperfeiçoamento progressivo do sistema. O movimento de mudanças curriculares nos cursos da área de saúde, em andamento em muitas Universidades do país, com realce para as Faculdades de Medicina, têm mostrado que a formação de médicos realizada no campo das práticas da atenção básica é uma necessidade que não se pode mais postergar e que representa a integração do ensino com a assistência. Também vemos um movimento de fortalecimento das residências médicas com atenção para o incentivo da atualização dos preceptores destas residências e buscando também integrar o programa nacional de Humanização do Ministério da Saúde com a formação de médicos residentes, já em andamento em alguns hospitais próprios do M.S. O conjunto das mudanças apontadas mostra a possibilidade de uma evolução positiva e simultânea em muitos aspectos do setor saúde. Estas são algumas das expectativas e esperanças que acompanham o processo de certificação dos Hospitais de Ensino, regulado pelas portarias interministeriais nº 1000, 1005 e 1006 e que estamos debatendo e construindo no presente momento.

      9. A iniciativa da realização do Seminário dos Hospitais de Ensino da Região Sul situa-se do ponto de vista da necessidade de troca de experiências e relatos sobre os êxitos alcançados nos entendimentos e nas relações entre hospitais e gestores municipais, as pactuações realizadas, as dificuldades encontradas e as formas de superá-las e também para a socialização e divulgação de processos de gestão inovadores que possam servir de base para estimular iniciativas positivas semelhantes, que possam ser adaptadas às circunstâncias próprias de cada hospital e ali também desenvolvidas. Com a convicção que o diálogo e a troca de informações representa um importante instrumento de trabalho cooperativo e estímulo à construção das mudanças necessárias que resultarão na qualificação progressiva do SUS e na viabilidade administrativa e financeira dos Hospitais de Ensino.

 

Porto Alegre, 5 de agosto de 2004.

 

1 Texto produzido para o Seminário dos Hospitais de Ensino da Região Sul; 5 e 6 de agosto de 2004; Grupo Hospitalar Conceição, Porto Alegre. Promoção do GHC, SMS/POA e ABRAHUE.
2 Diretor Técnico do Grupo Hospitalar Conceição. Membro do Conselho Fiscal da Associação Brasileira de Hospitais Universitários e de Ensino.

 


APRESENTAÇÕES DO SEMINÁRIO

REGIONALIZAÇÃO DO SISTEMA DE SAÚDE EM PORTO ALEGRE
REFORMA DA ATENÇÃO HOSPITALAR
HOSPITAL DO TRABALHADOR
PREFEITURA MUNICIPAL DE CAXIAS DO SUL
SISTEMA MUNICIPAL DE ATENÇÃO ÀS URGÊNCIAS E EMERGÊNCIAS
SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE PORTO ALEGRE SAÚDE DA MULHER PRÉ-NATAL
HOSPITAL DE CLÍNICAS DE PORTO ALEGRE
SEMINÁRIO DOS HOSPITAIS DE ENSINO DA REGIÃO SUL
SEMINÁRIO DOS HOSPITAIS DE ENSINO DA REGIÃO SUL GHC
SEMINÁRIO DOS HOSPITAIS DE ENSINO DA REGIÃO SUL UFSM
SEMINÁRIO DOS HOSPITAIS DE ENSINO DA REGIÃO SUL MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO


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